Mais de meio milhão de smartphones, computadores portáteis e tablets na gaveta

a a a

A Lipor, através da sua Unidade de Investigação, Desenvolvimento e Inovação e o apoio do APESB Young Professionals Group promoveu um trabalho de intercâmbio com um grupo interdisciplinar e multicultural de trinta estudantes da Universidade e Centro de Investigação de Wageningen (Holanda), no âmbito do curso de mestrado em consultoria internacional, procurando definir uma possível estratégia para melhorar a circularidade de Pequenos Equipamentos Eletrónicos Obsoletos (PEEO) no Porto.

Os PEEO podem ser definidos como pequenos equipamentos eletrónicos que funcionam ou que poderiam ser facilmente reparados, mas permanecem sem uso nas instalações do proprietário. São categorizados em quatro tipos de produtos comuns:

  1. smartphones;
  2. computadores portáteis, tablets e e-readers;
  3. câmaras digitais (fotografia e vídeo);
  4. consolas de jogos e leitores de multimédia.

O impacto ambiental dos Equipamentos Eletrónicos (EEs) é frequentemente subestimado e pouco exposto, e deve-se à extração de matérias primas e à deposição inadequada de equipamentos antigos. Se por um lado, os metais usados na produção de EEs são frequentemente extraídos através de atividades com elevado impacto negativo no meio ambiente, por outro lado, também se geram gases com efeito de estufa (GEE), como o CO2, devido aos combustíveis fósseis usados na maquinaria de extração e processamento, e no transporte. As emissões globais da indústria de produção de EE são comparáveis às do setor de transportes aéreos (2% - 4%) e a produção dos componentes dos EEs está classificada como intensiva em termos de emissões de GEE. A produção de um smartphone emite aproximadamente 55kg CO2eq, um computador portátil 260kg CO2eq, um tablet 100kg CO2eq e uma câmara digital ou leitor multimédia 9,5kg CO2eq.

A quantidade de PEE vendidos, comprados e produzidos cresceu muito nos últimos 10 anos, resultando no aumento do impacto ambiental deste mercado. A reutilização e reciclagem dos PEEO ainda é relativamente baixa, portanto, muitos desses PEEO acumulam-se nas casas e nas lojas sem serem usados, e o impacto ambiental continua a crescer. Para se contrariar esta tendência, é necessário criar um sistema mais circular para os PEEO.

Aumentar a circularidade do PEEO, além de mitigar os impactos ambientais negativos ao longo do ciclo de vida, pode trazer benefícios económicos e sociais adicionais. Os benefícios sociais podem incluir o aumento do emprego local nos mercados de reparação e de segunda mão, além de oferecer uma plataforma para produtos mais acessíveis para quem tem menos recursos.

 

Análise de fluxos e stocks de PEEs no Porto

Entradas

Surgindo a necessidade dum PEE, a maioria dos consumidores compra um equipamento novo. Apenas 12% do PEE são adquiridos em lojas de segunda mão, exemplificando a pequena contribuição do mercado de reutilização na aquisição de PEE.

Stocks

Quando deixam de estar em uso, 76% consumidores afirmam manter os PEEO no seu ambiente doméstico. Em média, cada Portuense guarda em casa 2 smartphones, 1 computador portátil/ tablet/ e-reader, 1 câmara digital e 1 consola de jogo/ leitor multimédia, que não usa. 70% dos smartphones, computadores portáteis, tablets etc. adquiridos, ficam acumulados em gavetas, caixas e armários. No Porto, o stock de PEEO ultrapassa 1 milhão de unidades. A tendência geral mostra que os jovens com menos de 35 anos têm maior probabilidade de manter os PEEO do que as pessoas acima dessa idade.

A análise ao estado dos PEEO acumulados, revelou que 60% seriam diretamente reutilizáveis e 20% reparáveis, enquanto que 20% estão danificados sem possível reparação, sugerindo que há um potencial para melhorar a circularidade dos PEEO, no que se refere à reutilização, reparação e reciclagem. O maior potencial de reutilização direta, 70%, encontra-se nos leitores multimédia e nas câmaras digitais, seguido por computadores portáteis / tablets / e-readers com 62%, e depois os smartphones com 46%.

Os residentes no Porto, identificaram como principal razão para manterem os seus PEEO em casa, quererem guardá-los como backup (39%), seguido por 20% que indicam ainda precisar dos dados neles contidos e 16% afirma que mantê-los é a opção mais fácil. Uma pequena parte, 6%, indica que apenas os mantém com a intenção de os vender. No entanto, estas não são as únicas razões pelas quais as pessoas decidem manter os seus PEEO. Uma combinação de todas as razões misturadas com o valor sentimental, podem influenciar a decisão de enviar para reciclagem ou reutilização. A perceção de um esforço acrescido ou burocrático para enviar para reciclagem ou até para um projeto com cariz social, torna ainda as pessoas menos propensas a entregar os seus PEEO. A possível utilização dos dados guardados nos equipamentos cria desconforto aos proprietários e também funciona como um entrave. Há, portanto, muitas considerações subjacentes e relacionadas entre si a desempenhar um papel no que inicialmente poderia parecer uma decisão simples.

Saídas

A reutilização direta pelos cidadãos (vender ou dar a alguém) é a forma mais eficaz de gestão circular de PEEO, pois minimiza o stock e a entrada de novos produtos no mercado. Vender os equipamentos a outra pessoa pode acontecer de várias formas, como on-line, off-line, concentrado (mercados de rua) ou individualmente. A venda combinada com a doação, representa cerca de 22% do destino dos PEE quando já não têm interesse para o proprietário (25% para smartphones, 30% para computadores portáteis / tablets / e-readers, 17% para câmaras digitais e 22% para consolas de jogos e leitores multimédia).

Apenas 5% dos PEE são enviados para reciclagem com o valor mais alto para computadores portáteis / tablets / e-readers (6%), a média para os smartphones (5%) e as restantes categorias com valores inferiores a 4%. 3% dos PEEO são colocados no contentor para resíduos indiferenciados, com maior impacto ecológico do que mantê-los em casa.

Análise aos fluxos e stocks

Como os PEE têm um tempo de vida útil limitado (até 2 a 4 anos para smartphones e computadores portáteis), as taxas de acumulação tendem a aumentar significativamente a ritmo acelerado se nenhuma estratégia de recolha for implementada.

Neste momento, pode-se dizer que a circularidade dos PEEO é dificultada devido a múltiplos fatores, sendo o mais relevante a falta de confiança nos processos de reciclagem refletida na preocupação do destino prometido com impactos positivos esperados seja de facto alcançado, falta de confiança na segurança dos equipamentos de recolha e no que acontece aos dados neles contidos. Em segundo lugar, o estudo identificou que a infraestrutura para recolha de PEEO é insuficiente, devido ao facto de não ser claro onde as pessoas podem encontrar pontos de recolha, 60% dos cidadãos do Porto desconhece a localização dos mesmos, e destes se encontrarem em locais com pouca visibilidade ou de difícil acesso. Por último, existe uma falta de sensibilização em relação ao impacto ambiental dos PEEO e de conhecimento técnico para o seu upcycling e reparação.

 

Oportunidades para o aumento da circularidade de PEEOs no Porto

Apesar dos fluxos atuais de PEEO não serem circulares, pode-se considerar que estão adormecidos. Quebrar a tendência de acumulação de PEEO pode ser alcançada através de 3 eixos:

1 - Construir confiança através de iniciativas diferenciadas para reciclagem, reutilização e reparação:

a) Reciclar: Benefícios ecológicos de enviar para reciclagem, com preferência para a personalização do contributo individual.

b) Reutilização: O mesmo que acima + Foto / certificado / informação da pessoa / ONG que recebeu os PEEO.

c) Reparação: O mesmo que acima, + conhecimento / habilidades / informações de geração de trabalho.

2 - Infraestrutura

a) Aumentar a quantidade

b) Segurança: nesta época tecnológica, há muita informação pessoal contida nos EE. Isso significa que muitas informações importantes, estão guardados nos EE fora de uso. A capacidade de fornecer um ponto de recolha seguro, que garanta que os seus equipamentos não sejam acessíveis a qualquer pessoa é, portanto, crucial.

c) Visibilidade / rastreabilidade: os contentores devem ser fáceis de encontrar; a visibilidade dos contentores pode ser melhorada, colocando-os mais à vista e adicionando sinais para orientar os utilizadores para esses locais. Um website acessível e confiável, com uma visão geral atualizada da localização de todos os pontos de recolha deve ser desenvolvido.

d) Limpos e convidativos: A apresentação dos contentores não deve ser negligenciada. Os contentores servem como uma representação da ação de envio para reciclagem aos utilizadores e, portanto, devem transmitir uma mensagem profissional e confiável. Também podem conter informações sobre os benefícios da reciclagem.

3 - Educação, Comunicação e Redes

a) Colaboração com lojas de reparação e universidades para a criação de programas de upcycling e educação.

b) Aumentar a sensibilização sobre os benefícios da aquisição de PEE em segunda mão (poupanças económicas, geração de empregos locais e benefícios ambientais).

c) Prolongar o tempo de vida útil dos PEE e manter um sistema estável.

d) Criar embaixadores ou programa de certificação.

 

Melhorar a visibilidade, a rastreabilidade, a confiança, a transparência, a segurança e a qualidade dos contentores/ pontos de recolha, irá resultar no aumento do desempenho dos mesmos. Além disso, as informações sobre os pontos de recolha, incluindo onde estão e por que são importantes, podem ser melhoradas com recurso a websites e canais de comunicação diferentes. Os cidadãos do Porto, identificaram ainda que o método/ local preferido para entrega dos PEEO são as lojas que vendem os EE.

Os Portuenses identificaram que a melhoria da infraestrutura seguida de compensações pela entrega voluntária, seriam os motivadores mais importantes para quebrarem a tendência de acumulação. A compensação não precisa de ser um valor monetário - a maioria dos cidadãos indicou que alguma forma de reconhecimento, uma atividade lúdica ou uma validação de que algo de bom seria feito (como plantar uma árvore) seria suficiente. Alguns consideram ainda que se uma segunda vida útil do PEE fosse assegurada, essa seria a sua principal motivação para o doar. Enquanto alguns cidadãos se movem mais por questões ambientais, outros, valorizam mais o impacto social, pelo que iniciativas que combinassem as duas vertentes da sustentabilidade seriam as mais mobilizadoras.

No Porto, se fossem reciclados pelo menos 1% dos PEEO que estão acumulados, seria evitada a extração de 1800g de ouro e a emissão de 780 toneladas de CO2eq. Compreenderia a entrega de cerca de 12 mil equipamentos, com preferência para os que não podem ser reparados. Traduzido num valor aproximado de 90.000 € (70.000 + 20.000) com referência ao preço de mercado do ouro e o CO2 European Emission Allowance.

Este trabalho de consultoria foi desenvolvido para a LIPOR com a coordenação técnica da Unidade de Investigação, Desenvolvimento e Inovação e o apoio do APESB Young Professionals Group. Realizado por um grupo interdisciplinar e multicultural de trinta estudantes da Universidade e Centro de Investigação de Wageningen (Holanda), no âmbito do curso de mestrado em consultoria internacional.

 

Consulte o Relatório completo aqui. (documento em inglês) 

voltar
Locais de deposição
Encontre o local mais perto de si para depositar seus resíduos.
Ecopontos
Ecocentros